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Queridos forrozeiros,

Aqui vai um texto de desabafo do nosso querido Tato do Falamansa. O texto é um pouco grandinho mais fale a pena ler. E ao final fiquem a vontade para comenta.

Desabafo do Tato do Falamansa sobre “ROOTS”

“Agora são 4:44 da manhã( que horário mais marcante para o momento) e levantei da minha cama movido por um turbilhão de pensamentos que giram em torno da palavra “Roots”, que até 8 anos atrás era aplicada ao forró mais tradicional, movido pela zabumba, triângulo e sanfona, e era tão somente uma denominação de um estilo e não uma demarcação de território que hoje é egoístamente aplicada ao “forró para poucos”, “forró que só eu conheço”, “forró não comercial”(Tá bom!), “forró só eu quero ser rei” e que está matando um movimento tão grandioso da nossa cultura que acontece no sudeste e centro oeste (aliás , ironicamente bem longe de sua raíz) chamado forró universitário.

Mas o que é “roots”? Qual o significado da palavra? Já começa aí um fato curioso: Nada menos “roots” do que usar para falar de algo tão “raíz” da cultura brasileira, uma palavra em inglês, não é mesmo? Mas indo mais a fundo, “roots”, que significa “raíz”, parte de uma denominação botânica para a parte da planta que na maioria dos casos, fica fincada a terra, base de sustentação e de extração de minerais e água do solo. Não sou nenhum botãnico mas acredito que raíz, cada planta tem a sua. Vc não vê um pé de jaboticaba de um lado do quintal, com a mesma raíz que um pé de laranja do outro lado, mesmo estando eles todos no mesmo pomar. Mas ambas convivem harmoniosamente podendo uma atender a quem gosta de jaboticaba e outra a quem gosta de laranja. Agora, já imaginou se todas usassem a mesma raíz? Em pouco tempo todas as frutas do pomar teriam o mesmo gosto e essa raíz não teria força para levar a todas as árvores os nutrientes e esse pomar secaria.

Acredito que no forró seja mais ou menos assim. Existem as” árvores” mais antigas, com raízes mais fortes, que servem de inspiração para as “árvores” mais jovens e que ainda estão fincando suas raízes. Mas cada um tem a sua raíz e não adianta esperar que uma nova árvore tenha a mesma raíz que aquela árvore antiga. Todas dão frutos e só com todas produzindo, esse “pomar” dará frutos para sustentar um movimento grandioso, forte e sadío que possa chegar até as futuras gerações. Lembrando também que assim dessa maneira ninguém vai chegar até o pezinho mais novo sem conhecer as grandes árvores mais antigas, ou vice-versa, e isso é saudável para a cultura.

Saindo desse “pomar” e falando mais abertamente, esse ano completo 15 anos de forró e acho que já tenho um pouco de experiência(não tanto quanto os grandes mestres é claro) para falar do assunto. Fiquei rolando na cama pensando nessa palavra “roots” e quero colocar aqui tudo o que, PARA MIM, é “ROOTS”. Percebi que sou extremamente “ROOTS” dentro da minha própria raíz.

“ROOTS” foi voltar da Alemanha em 94 e ao invés de ir curtir para Porto seguro como todo muleque da época, ir para uma vila de pescadores no norte do Espírito Santo. “ROOTS” foi morar em São Paulo numa kitchnete no centro, e desenhar, xerocar ,recortar e distribuir panfletos com os dizeres “Forró Universitário”(a nossa equipe chamava “Roots Produções” ,olha que irônico!!), e panfletar diariamente nas portas das principais faculdades tendo que ouvir frases como :”- Forró??!! Cê tá louco!!” ou “-Credo!! Isso é coisa de paraíba!!” ou o pior, ouvir risos daquela “patricinha” que , ,a partir deste dia, passava a me olhar com desdém. “ROOTS” pra mim, era sair da aula todos os dias as 11 da noite, esquentar um miojo no microondas e sair correndo sem nem tomar banho pois tinha que chegar no forró as 11 e meia para bater o cartão e começar a trabalhar discotecando até o último cliente. “ROOTS” pra mim, era ter que deixar sempre meu carro na descida pois ele só pegava no tranco e ainda passar pelo vexame diário de empurrá-lo na frente da balada todas as madrugadas quando saía do trabalho.

“ROOTS” pra mim foi ir tantas vezes para Itaúnas, mas sempre tendo que trabalhar para garantir minha estadia.

“ROOTS” pra mim, era sempre deixar o forró 2 horas antes do que todo mundo, e atravessar as dunas tocando uma mula cheia de engradados, côco e o que mais precisasse para abrir a barraca em que eu trabalhava antes que todos chegassem, e ainda ter que bombear água para a caixa d’água durante uma hora, pra não faltar durante o dia.

“ROOTS” pra mim foi cantar todo o final de tarde na praia durante 5 ou 6 horas só com um violão e a voz sem receber nada por isso, e em muitas vezes cuspir sangue (sério!!) de tanto forçar as cordas vocais. “ROOTS” pra mim foi compor “Rindo a toa” e “Xote dos milagres”, músicas que juntas venderam 2.000.000 de cópias originais e sabe lá quantas piratas. “ROOTS” pra mim foi ir pela primeira vez ao Faustão e ouvir o diretor dizer não toca essa música não que acho que não pega, toca algo mais animado ! (A música era “Rindo a toa” !!) “ROOTS” pra mim foi ganhar o prêmio Multishow de revelação e ser advertido pelo dono da gravadora para não falar a palavra “forró”, mas sim, “MPB”, pois ele previa que isso era só um movimento, e que iria se acabar, mas mesmo assim, subir no palco e dizer: “-Dedico esse prêmio a memória de Luis Gonzaga e a todos que fazem o forró pé de serra!” . “ROOTS” pra mim é ouvir de tantas pessoas histórias de superação através da minha música, como cura de depressão, e até , acredite ou não, 2 vidas salvas de pessoas que iriam se suicidar mas desistiram ouvindo uma determinada música da Falamansa.”ROOTS” pra mim é ter retirado um tumor de 10cm x 8cm do meu cérebro e voltar aos palcos em 24 dias enão em 5 meses como previam os médicos. “ROOTS” pra mim é ir todo ano para os principais festejos juninos do Nordeste, representando uma sonoridade deles mesmos num palco cheio de bandas de forró eletrônico( que aliás temos que aprender a respeitar, pois são trabalhadores como nós. Respeitar!Não precisa gostar! ). “ROOTS” pra mim é compor 95% do meu repertório. “ROOTS” pra mim é pelo décimo ano consecutivo, estar entre os três maiores arrecadadores de direitos autorais no mês de junho(junto de Luiz Gonzaga e Lamartine Babo) “ROOTS” pra mim é, enquanto as outras bandas trabalham músicas que falam de cachaça, sacanagem, traição, escolher o tema consciência ambiental para levar para os palcos do Brasil inteiro, mesmo que isso signifique não tocar na rádio. Por fim “ROOTS” pra mim é ainda, depois de tanto tempo, tantas conquistas, 90 shows por ano, uma esposa maravilhosa, um filho abençoado por Deus, levantar da cama as 4:44 da manhã e escrever até as 7:12 sobre um movimento que , de acordo com alguns , nem faço parte mas que estou vendo se corroer a cada dia pela inveja, egoísmo, egocentrismo e pela falta de consciência cultural e união.

Fala-se tão mal do sertanejo mas temos que aprender com eles essa palavra: UNIÃO. Eles sim sabem valorizar os artistas que são mais conhecidos entendendo que o futuro das novas duplas e até dos sertanejos mais “ROOTS” estão nas mãos deles. Qualquer casa de pequeno porte sonha em ter uma dupla famosa tocando! Porque no nosso forró não é assim? Tem casa de forró que não quer colocar quem não seja “ROOTS” pois “Nosso público é assim”!! Festivais que não querem bandas grandes porque “Nosso público é assim”!! “ROOTS” Uma hora o público “ROOTS” se casa, tem filhos , somem do circuíto e aí as casas ficam as moscas!! Nada impede de uma casa dividir o espaço entre “ROOTS” e “Comercial”. Isso é bom!! Abre o leque de oportunidades!! Marketing é bom!! tudo precisa de marketing!! O nome “ROOTS” é marketing!! Dançar descalço é marketing!!

Pra finalizar, deixo-me a disposição para ser um pilar dessa união, aliás como já venho tentando fazer, gravando com bandas que as vezes nem conheço, propondo a casas de forró condições mais bacanas e até, contrariando meus próprios companheiros de banda( por causa da possibilidade de perder datas com a Falamansa), fazendo participações em shows de outros trios e bandas para alavancar o movimento. Mas que fique claro aos aproveitadores que empobrecem o movimento, não venha com essa de ” faz baratinho pra valorizar o movimento”. Faço desconto e parceria, mas não desvalorizo o meu trabalho pra você ganhar dinheiro! E isso vale pra todas as bandas, não deixem sugar de vocês o dom mais precioso que é seu talento em troca de um engradado de cerveja!

Valorize-se!! Se todos se valorizarem, todos ganham mais. Dominguinhos já disse isso a 20 anos atrás e tá acontecendo de novo!!

Agora vou dormir, esperando que absorvam só o bem nas minhas palavras e espero não ter ofendido ninguém. Aos que não gostam de mim ou da Falamansa,não fiquem procurando erros no meu texto para criticar ou se sobrepor como quem diz “-Olha o que eu falei pro cara do Falamansa!! Eu sou foda!!”. Tudo que expressei aqui é o meu sentimento mais puro, sem ódio(talvez revolta!) no coração. Se concordar demonstre o seu apoio, se não, continue agindo do mesmo jeito e apenas ignore as minhas palavras.

Um sincero abraço para todos os forrozeiros do Brasil e façamos deste momento um recomeço e não a continuidade do caminho que leva ao fim. Hoje não dependo do movimento, mas tenho um carinho muito grande pelos trios e bandas que dependem e é por eles e pela cultura que estou lutando. Todos somos “ROOTS” nesse pomar musical!! Aliás, troque todas as palavras “ROOTS” que escrevi pela frase “AMOR AO FORRÓ” e verá que o texto fará ainda mais sentido!!!”

TATO

Fonte: Dj Fabrício(ES)

Galerinha!!!

Para aqueles que não poderão ir a Itaúnas não fiquem tristes. O nosso querido Dj Fabrício(ES) de Vitória estará fazendo a transmissão Ao Vivo do festival direto do Site Forró Brasileiro.

Aproveitem!!!